MARLENE DIETRICH
Marlene Dietrich em Marrocos, 1930.
Há mulheres que escolhem o caminho mais seguro. E há aquelas que, diante de uma bifurcação, seguem em frente por pura convicção, ainda que o mundo inteiro esteja olhando, esperando que recuem.
Marlene Dietrich era do segundo tipo. Atriz, cantora e ícone de estilo, ela expandiu o conceito de feminilidade com charme, coragem e um terno bem cortado.
Nascida em Berlim em 1901 com o nome Marie Magdalene, ela começou por reinventar até o próprio nome, combinando as duas primeiras sílabas de cada palavra para criar uma identidade que não existia antes. Esse gesto pequeno e preciso diz muito sobre quem ela seria: uma mulher que não aceitava nada como dado, nem o próprio nome.
Ela construiu sua carreira no circuito teatral de Berlim antes de conquistar Hollywood. Em 1930, no filme Marrocos, apareceu em cena usando smoking, cartola e gravata. Beijou uma mulher na boca. Na tela do cinema. Numa época em que nenhum dos dois gestos era permitido, muito menos os dois ao mesmo tempo. O público foi ao teatro esperando uma diva e saiu sem saber ao certo o que havia visto, mas incapaz de esquecer.
Em um tempo em que normas de gênero eram rígidas, Marlene desembarcou na Gare Saint-Lazare em Paris vestindo um terno masculino, desafiando a lei napoleônica que proibia mulheres de “se vestirem como homens". O gesto foi tão disruptivo que, naquele mesmo ano, jornais questionavam se a calça seria a nova moda feminina. Ela provou o papel político da moda, quando questionou paradigmas e provocou transformações culturais que vão muito além do guarda-roupa.
Na vida privada, ela era frequentemente fotografada de calça, paletó e gravata. Quando perguntavam por que preferia calças, ela respondia com a simplicidade de quem não sente necessidade de se justificar: "Eu acho que sou mais atraente com roupas masculinas. Além disso, esse tipo de roupa permite total liberdade e conforto". Enquanto o mundo debatia o escândalo, ela apenas se vestia. As calças de pernas largas que ela popularizou ainda hoje carregam seu nome no mundo da moda.
Marlene Dietrich em Antibes, França.
Mas ela nunca abandonou os vestidos. Aparecia de lamê dourado com os mesmos ombros que haviam sustentado um smoking branco na noite anterior. Amou homens e mulheres com a mesma naturalidade com que trocava de guarda-roupa. Marlene não transitava entre mundos: ela simplesmente não reconhecia as fronteiras que os separavam.
Quando Hitler a convidou para emprestar seu rosto ao regime nazista, ela recusou. Renunciou ao país, à carreira europeia, e foi para a frente de batalha americana durante a Segunda Guerra, cantando para os soldados e ajudando refugiados judeus. Foi condecorada pelos aliados e chamada de traidora pelos alemães. Não se arrependeu de nenhuma das duas coisas.
Marlene Dietrich morreu em Paris, em 1992, aos 90 anos. Está sepultada em Berlim, a cidade que ela amou e abandonou por princípio. Seu legado vai muito além do androginismo na moda: está na coragem de reivindicar a liberdade de ser quem se é.