SEM POLIÉSTER – O DESAFIO DO PLÁSTICO NA MODA

Hoje, o poliéster domina mais da metade da produção têxtil global, impulsionado pela incessante busca por redução de custos e pela lógica do consumo de massa¹. Contudo, é fundamental questionar a origem e os impactos do que vestimos.

O poliéster é, em sua essência, plástico derivado do petróleo. Sua onipresença gera um dano ambiental sem precedentes. Na Muese, optamos por um caminho diferente. Decidimos eliminar tecidos compostos de poliéster em nossas roupas, priorizando materiais que ofereçam qualidade elevada, desempenho superior e que sejam mais responsáveis com o planeta.

Care Label PolyesterMICROPLÁSTICOS: UMA AMEAÇA AOS OCEANOS

Para a Muese, a sustentabilidade começa na compreensão dos ciclos invisíveis. Existe um aspecto da produção têxtil que merece nossa atenção imediata: os microplásticos.

Fibras sintéticas derivadas do petróleo liberam micropartículas persistentes a cada lavagem². O poliéster figura historicamente como um dos maiores vetores dessa poluição, sobretudo em texturas felpudas e de fibras curtas como o fleece. Por serem imperceptíveis a olho nu, essas partículas atravessam sistemas de filtragem e eventualmente chegam aos oceanos. Lá, o dano se multiplica: confundidas com alimento pelo plâncton e pequenos peixes, elas se acumulam nos organismos, adoecendo a fauna marinha e introduzindo contaminantes na base da cadeia alimentar, criando um ciclo tóxico que eventualmente retorna a nós³.

Sendo uma fibra de menor custo, o poliéster está intrinsecamente ligado a construções de tecido sintéticos mais frágeis e com menor resistência à abrasão. É justamente essa fragilidade estrutural que potencializa o desprendimento massivo de microfibras a cada lavagem, agravando silenciosamente a poluição marinha. Em contrapartida, existem alternativas sintéticas de qualidade superior, como a poliamida, que oferecem maior resistência à abrasão e reduzem significativamente o desprendimento de fibras, além de inovações com tecnologias biodegradáveis de menor impacto residual. Guiados por um profundo respeito ao meio ambiente, sentimos a responsabilidade de mitigar esse ciclo, selecionando matérias-primas que interajam de forma mais harmônica com os ecossistemas aquáticos.


A ORIGEM E A PEGADA DE CARBONO

Acreditamos que a verdadeira sofisticação começa na transparência da origem. O poliéster é, assim como todo tecido sintético, derivado de combustíveis fósseis não renováveis⁴. Sua transformação em fio exige processos químicos pesados e alta demanda energética, gerando uma pegada de carbono desproporcional. Vivemos um paradoxo: utilizamos um material que persiste séculos na natureza para confeccionar peças que possuem um ciclo de uso extremamente curto.

Distante da lógica do baixo custo inerente ao poliéster, priorizamos matérias-primas naturais e celulósicas de origem responsável. Nos casos em que o desempenho técnico torna o uso de sintéticos indispensável, optamos por fibras de alta performance que asseguram a longevidade do vestuário. Ao unir materiais nobres a uma estética atemporal, estendemos o ciclo de vida de cada criação, reafirmando nosso compromisso contra o descarte prematuro e diluindo o impacto de carbono de cada peça no tempo.


A COMPLEXIDADE DA RECICLAGEM

A reciclagem têxtil do poliéster convencional enfrenta barreiras técnicas severas que raramente são discutidas. Diferente de materiais como o vidro ou o alumínio, o poliéster sofre uma degradação de qualidade a cada ciclo de reprocessamento⁵. Esse fenômeno torna a reciclagem dessas peças um processo tecnicamente complexo e energeticamente custoso, fazendo com que a grande maioria do poliéster produzido hoje termine, inevitavelmente, em aterros sanitários.

Muito se discute sobre o poliéster reciclado (rPET) a partir de garrafas plásticas como uma solução ecoeficiente, mas olhamos para essa alternativa com cautela. Ao analisarmos a cadeia produtiva, notamos que transformar garrafas em roupas pode interromper o ciclo circular das embalagens, no qual o plástico seria reaproveitado múltiplas vezes em sua forma original, e o transfere para um sistema de baixa circularidade⁶.

A questão torna-se ainda mais crítica com a mistura do poliéster com fibras naturais. Essa fusão cria um material híbrido de separação quase impossível, o que inviabiliza o reaproveitamento do plástico e, simultaneamente, condena fibras como o algodão, impedindo que sejam compostadas ou recicladas individualmente.

Nossa busca é pela excelência e longevidade, acreditando que a verdadeira sustentabilidade reside em criar roupas que permaneçam no seu guarda-roupa por muito tempo. Ao final de seu ciclo de vida, o uso de fibras selecionadas garante que cada peça tenha o melhor destino possível, respeitando o equilíbrio e os limites do nosso ecossistema.

Polyester on landfill

A ESCOLHA POR MATERIAIS NOBRES

Na Muese, acreditamos que a verdadeira elegância é sentida na pele. Para nós, o ato de vestir transcende a estética visual, tornando-se uma experiência sensorial que exige matérias-primas nobres. Essa escolha estabelece uma sinergia direta com a profundidade de nossos designs, motivo pelo qual não nos rendemos à conveniência de utilizar o poliéster para reduzir custos operacionais. Para nós, a sofisticação também se manifesta na suavidade do toque, na pele que respira e na qualidade capaz de atravessar o tempo.

Acreditamos que a excelência de uma peça exige insumos de padrão superior para se revelar plenamente. Mais do que uma diretriz técnica, este posicionamento é um convite para repensarmos a produção e o consumo. Buscamos nos distanciar da efemeridade para abraçar materiais que carregam história, conforto superior e um profundo respeito aos ciclos da natureza.

Sabemos que o caminho da sustentabilidade não é linear. É um tema vivo, que demanda análises constantes e não oferece respostas definitivas. Por isso, nosso compromisso é com a pesquisa atenta, equilibrando as dimensões ambiental, social, econômica e cultural de cada decisão. Movemo-nos por uma intenção positiva e inquieta, buscando sempre a melhor alternativa disponível para o momento e para o futuro.

 

 

REFERÊNCIAS:
¹ TEXTILE EXCHANGE. Materials Market Report. Principal organização global de dados têxteis, documentando o domínio das fibras sintéticas e o impacto da produção em massa no mercado mundial.
² THE MICROFIBRE CONSORTIUM. Microfibre Release from Textiles. Autoridade global em fragmentação têxtil, responsável por pesquisas sobre o desprendimento de microfibras sintéticas durante a lavagem.
³ ELLEN MACARTHUR FOUNDATION. A New Textiles Economy. Referência em Economia Circular, detalhando o impacto ambiental do poliéster e a contaminação dos oceanos por microfibras.
⁴ CHANGING MARKETS FOUNDATION. Fossil Fashion. Investigação sobre a dependência da indústria da moda em relação aos combustíveis fósseis e à extração de petróleo para a produção têxtil.
⁵ EUROPEAN ENVIRONMENT AGENCY (EEA). Plastic in Textiles. Agência da União Europeia que analisa os desafios técnicos e as barreiras que impedem a reciclagem eficiente de fibras sintéticas.
⁶ CHANGING MARKETS FOUNDATION. Synthetics Anonymous. Análise crítica sobre as limitações da reciclagem linear de garrafas PET para o setor têxtil e a interrupção da economia circular das embalagens.